Após um belo final de semana curtindo as praias de São Sebastião com a família, saio de uma hibernação blogística com um novo e interessante post. Aconteceu comigo no começo da semana e não poderia deixar de contar.
E lá vamos nós, segunda-feira as 6 da manhã estou no voo da Gol para Vitória. Mesmo voo, mesmas pessoas (Até parece aqueles fretados Jundiaí-São Paulo). Eu me sento na poltrona 2D (Corredor, prefiro pois permite esticar as pernas) observando a entrada dos passageiros e eis que surge um daqueles com uma mala enorme e desengonçada. Era um rapaz na faixa de 30 anos com o pai.
A mala que ele puxava era tão grande que mal cabia no bagageiro acima da poltrona dele. A comissária de bordo (Eu chamei inicialmente de aeromoça mas levei um puxão de orelha de uma amiga, que me disse a designação correta) gentilmente e com um belo sorriso no rosto sugeriu ao rapaz que a enorme mala fosse despachada para maior comodidade mas o rapaz a olhou com um olhar de contrariedade e disse um contundente "não". Ela se limitou a sorrir (Embora com certeza quisesse mandá-lo para aquele lugar) e se ofereceu para arrumar um lugar para a enorme mala. Ela levou a mala para o meio do avião e o rapaz e pai se sentaram nas poltronas 1C e 1D respectivamente.
Nisso mais alguns com bagagens enormes entraram no avião. Vou chamá-los de Senhores da Mala, pois sempre deixam de despachar sua bagagem para ganhar alguns minutos. Bem incovenientes, por sinal.
Mas voltemos ao tema.
Tudo certo até aí, nada de anormal acontecendo e eu estava me preparando para dormir quando percebi que o rapaz na poltrona 1C colocou um chapeuzinho azul na cabeça com alguns símbolos e escrito MEKORHAIM . Aí pegou um livro estilo Biblia totalmente escrito com aqueles caracteres arábicos e começou a ler freneticamente como se orasse, por vezes olhando para cima mas sem parar de orar. O voo ainda nem saiu e a comissária de bordo começou a fazer as demonstrações de segurança.
Comecei a pensar o pior, claro. Já pensei no cara como um dos muitos fundamentalistas religiosos fanáticos suicidas e que a bagagem dele deveria ter uma bomba, mandando o avião e todos dentro para o espaço. Agora fazia sentido o porque dele não querer despachar aquele enorma estorvo e estar rezando. Deve estar se preparando para o fim e pedindo forças ao Deus dele.
Acho que o cara deveria estar dizendo alguma coisa do tipo: - Perdoa meus pecados meu Senhor, daqui a pouco estarei sentado à sua direita na vida eterna (E eu do lado esquerdo socando-o por ter feito essa merda e me levar junto com ele - Pelo menos posso socá-lo pela eternidade).
Neste momento, perdi totalmente o sono e prestei bastante atenção ao procedimento de segurança (Eu poderia inclusive fazer a demonstração tantas foram as vezes que vi, mas depois de um número suficiente de vezes deixamos de prestar a devida atenção) pois poderia ser necessário.
Fiquei de olho no sujeito.
O voo atrasou 20 minutos, mas saiu. Nem bem o avião ganhou altura ele continuou com o ritual. Retirou um pano branco de uma bolsinha (Tipo necessaire) com detalhes em azul e um cubo de couro com 2 longos cintos também de couro de cada lado do cubo. Este cubo tinha uns símbolos que não consegui distinguir.
Ele se cobriu com o manto e enrolou o cinto de couro nos braços e na cabeça de forma que o cubo ficou fixo na sua testa. Arrumado com a fantasia ele começou de novo a ladainha com o livro.
Fiquei pensando quando ele iria levantar da poltrona e anunciar o sequestro do avião ou a bomba. Fiquei me imaginando dando um pulo da minha poltrona direto no pescoço dele, estilo Magnum ou ainda Axel Foley (Um tira da pesada) e dominando o maníaco, salvando todos e o dia. Já me vi em todos os jornais de maior circulação, fotos na revista Isto É e por fim uma entrevista no programa da Ana Maria Braga.
Tomei meu suco de laranja gentilmente servidor pelas comissárias, mas mantive o olho no sujeito.
De repente ele se levanta, meu coração dispara e minha adrenalina vai ao máximo... A hora tinha chegado.
Ele se dirige ao meio do avião e volta com a maldita mala. Que raios ele queria com aquela mala? No mínimo iria armar a bomba.
Enquanto isso dou uma boa olhada nos demais passageiros do avião. Uns dormem, outros estão lendo e alguns poucos workaholics (Ver post anterior) estão com o notebook ligado. Eles nem imaginam o que está rolando na frente e o perigo que eles correm. É melhor assim pois não queria instalar o pânico.
Mas voltando, o cara termina seu ritual e agora é o pai que começa. Mesma coisa: Chapeuzinho azul, manto branco com detalhes em azul, cinto e quadrado de couro na testa e a Biblia. Estou ficando preocupado mesmo.
Neste momento, comecei a pensar em algum motivo para o rapaz não ser um terrorista e eu ficar mais tranquilo. Vejamos:
- Estamos no Brasil onde os ataques terroristas, se não inexistentes, são raríssimos.
- Nenhum terrorista profissional pegaria um voo as 6 da manhã para Vitória, sendo que existem vários voos mais interessantes como por exemplo, um de SP a Brasília na terça feira as 11 hs.
- O terrorista está viajando com o pai. Se fosse mesmo um suicida seu pai nem existiria (Já teria explodido outro avião por aí).
- O terrorista colocou um boné branco depois de passar o chapéu azul ao seu pai e estava escrito "Paradise" no boné. Embora este argumento posso ser usado também como agravante pois o terrorista poderia estar se preparando para ir ao paraíso onde teria as 70 virgens.
Faço um parênteses aqui para falar das 70 virgens. Depois de se saciar com cada uma delas (Mais de uma vez, claro) as 70 virgens não seriam mais virgens. Elas poderia exigir direitos e qulquer coisa que um bom advogado possa conseguir. Teríamos então 70 processos e fatalmente 70 sogras. Passaria do paraíso para o inferno.
Pousamos, finalmente. Ufa! O avião não explodiu e eu não precisei agir.
Tudo isso se passou devido a minha ignorância sobre o que estava rolando.
Depois de um pouco de pesquisa consegui algumas informações.
- O rapaz e seu pai eram Judeus (Não ortodoxos) e estavam lendo a Torá - livro sagrado do judaísmo.
- O chapeuzinho azul tem nome: kippa. Os homens judeus a usam.
- MEKORHAIM : Na verdade é MEKOR HAIM. É um tipo de congregação com várias sinagogas.
- O ritual do manto e artefatos de couro fazem parte da crença deles.
- Ele não era terrorista.
- Eu sou um idiota (Não precisei fazer nenhuma pesquisa para descobrir isso).
No final, foi um voo, no mínimo, interessante.
Ah, se acharem estranho voo sem o acento circunflexo, saibam que assim já está correto de acordo com a nova gramática da lingua portuguesa válida a partir de Janeiro/2009.
Paz a todos
MF
O Poder da Escolha e O Efeito Borboleta
Há 14 anos

2 comentários:
Pois é, Motoqueiro!
Perdoe os termos de baixo calão, mas com esse post eu nem preciso ver você todo dia no escritório para cagar de rir! Parabéns pelo seu estilo irreverente e demolidor.
Mas não ache que você é idiota só porque não conhece os costumes de certos povos. Você não nasceu sabendo. Claro que daqui para a frente, este caso particular de ignorância não será tolerado... :-)
Às vezes, a falta de informação faz com que passemos por maus bocados. Então para você não sofrer mais, deixo uma valiosa pérola de informação sobre como reconhecer um terrorista.
http://www.youtube.com/watch?v=y5ehZYZIc-Y
Boa sorte nos seus vôos.
A propósito, tô* cagando para a reforma ortográfica. Que merda fizeram com a língua, depois de todos os anos que passei no 1.o grau** aprendendo português correto? Então a solução para o analfabetismo é nivelar por baixo? Tira todos os acentos e não precisa mais se preocupar se está escrito errado! Sabe, eu acho que você deveria escrever sobre esse assunto. Vai dar o quê falar!
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* usei a forma coloquial do verbo estar só para pôr mais um acento
** 1.o grau, sim. Que ensino fundamental, o quê! Pensam que inventando nomes novos resolvem os problemas antigos?
Pois é, existe um monte de coisas nas culturas espalhadas pelo mundo que nem temos idéias de onde veio e porque.
Temos que sempre ficar atentos e não cometer gafes.
Agora, boa idéia de post sobre a nova reforma ortográfica. Vou providenciar.
Um abraço
MF
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