quarta-feira, 25 de março de 2009

Que tal um Churrascão na Sexta-Feira Santa?

Boa noite a todos,

Minha empregada me olhou com uma expressão de surpresa hoje cedo quando me perguntou o que eu costumava comer na sexta-feira santa. Eu respondi: -Acho que vou fazer um churrascão; picanha, linguiça, frango, pão de alho e uma cerveja bem gelada.
Não sei se foi olhar de surpresa ou de dó. Dó de mim, claro.
Quem diabos foi que inventou que na sexta-feira santa devemos comer bacalhau? Deve ter sido a indústria de bacalhau, que deve se entupir de dinheiro nesta época do ano.
Na verdade, isso faz parte de uma tradição da Igreja segundo o qual devemos fazer abstinência de carne na Sexta da Paixão e na Quarta de Cinzas.
A Sexta da Paixão é o dia em que ocorreu a morte de Cristo e a Igreja diz que, em respeito à morte de Cristo, não se derrame sangue nesta data, o que acontece quando se mata um boi, um porco, etc. Não há sangue (Pelo menos não visivelmente) quando se mata um peixe.
Outra explicação dada é que o peixe tem um significado especial para os cristãos pois a palavra peixe em grego formava as iniciais de Jesus Cristo Filho de Deus Salvador (Ou alguma coisa parecida).

No final, esse negócio de deixar de comer carne é mais um dos dogmas da Igreja que nos é enfiado goela abaixo, através da opressão e dominação pela força que a Igreja praticou através dos séculos e que tenta até hoje de formas mais, digamos, "amenas".

Veja, por exemplo, o caso da garota de 9 anos de idade, de Recife, que foi estuprada pelo padastro e que foi submetida a um aborto legal, apoiado pela mãe.
Toda a equipe médica que fez o aborto e a mãe foram excomungadas pela Igreja. O padastro, que foi o autor do estupro, não foi. Interessante, não?
Excomunhão: Aplicada pela Igreja, é prevista em seu Código de Direito Canônico. Ela impede a participação do indivíduo na vida litúrgica da Igreja, e implica em perda dos seus direitos como batizado.

São motivos para a excomunhão automática:
- A Heresia: Não aceitar os dogmas da Igreja (Já me ferrei neste primeiro)
- O Cisma: Rompimento com a doutrina da Igreja (Caí nesse também)
- Apostasia: Abandono da fé (Neste eu não tenho certeza, pois tenho fé em muita coisa, não necessariamente no que a Igreja acredita. Pensando bem, acho que dancei neste também)
- Consagrar bispos sem autorização papal: Com punição aplicada a consagrantes e consagrados
- Jogar fora hóstias consagradas ou símbolos religiosos ou usá-los para sacrilégio (Jogar fora "santinhos" de propagando política faz parte de "jogar fora simbolos religiosos"? - Dancei)
- A prática do aborto
- A violação de confissão
- Agredir fisicamente o papa ou bispo. (Ah, mas abaixo do bispo, você pode descer o pau em todo o clero)

O mais interessante é que o estupro, assassinato, roubo, sequestro e outros crimes ediondos não entram na lista.
Ou seja, você pode ser padre e ser pederasta ao mesmo tempo. Isso pode. Tanto pode que o número de padres gays e pederastas só não é maior porque a igreja coloca panos quentes, quando pode.

Antigamente a Igreja queimava, torturava ou fazia o diabo com a pessoa que cometia um perjúrio, através da Inquisição. Olhar torto para um membro da Igreja era motivo para levar umas chicotadas. Muitos cientistas famosos foram humilhados pela Igreja por falar a verdade do mundo, que era contrária a Igreja. Galileu foi humilhado publicamente por colocar a Terra fora do centro do Universo (Seguindo o modelo Copernicano) e teve que se retratar para não morrer pelas mãos da Igreja. Depois disso Galileu foi mantido em prisão domiciliar e proibido de divulgar suas idéias. Mas estas foram contrabandeadas para a França e publicadas assim mesmo. Não há como frear o desenvolvimento e a proliferação da verdade.

Com tudo isso, a Igreja se mantinha no "topo da cadeia alimentar", mandando e desmandando. Ela foi perdendo poder com o tempo, mas ainda mantém a pujança do que já foi no passado. Aquele ranço permanece, como uma empresa que já foi pública e foi privatizada, contém um ranço de estatal, acontece o mesmo com a Igreja.
A Igreja precisa manter as propriedades e riquesas dela. Ela prega a pobreza mas vive no luxo. O papa, em pleno século 21, proíbe o uso de preservativo dizendo que devemos ter abstinência sexual. Ele só se esqueceu de avisar os funcionários (E funcionárias) dele dessa máxima.
Claro, ele tem que manter a ordem social e os bons costumes outorgados pela igreja. Mesmo que ele seja a favor do uso de preservativos, vai dizer o contrário, caso contrário seria um hipócrita.

A Igreja não evoluiu com o tempo. De quem ainda acredita na virgindade de Maria, pode-se esperar qualquer coisa. É um absurdo pensar que José, casado com Maria, já não tinha "mandado ver" na carne.
Fora isso, há um sem número de dogmas impostos pela Igreja com a seguinte máxima: Você tem que ter fé cega, sem questionamentos, no que nós da Igreja dizemos. Só assim serás salvo.

No final das contas, eu já vou pro Inferno por metade das palavras que escrevi neste post. Já fui amaldiçoado por um Evangélico que me disse que eu não poderia entender a Bíblia sem ter a permissão de Deus (Será que ele manda a permissão em 3 vias, protocolado, com firma reconhecida?). Outro maluco me disse que eu iria queimar no mármore do inferno (E ele realmente acreditou no que estava dizendo). Por último, outro que foi submetido a lavagem cerebral me disse que eu não tinha salvação, só quem estava na religião dele, ou que se convertesse.

Sou ateu? Não! E acredito que não existe quem seja 100% ateu. Eu acredito em algo maior, uma energia e não um velhinho barbudo, egoísta, punitivo e que escolhe filhos a dedo para serem seus preferidos.
Eu não preciso de intermediários para falar com Deus (O que quer que Deus signifique para mim). Não preciso de uma receita de bolo ou de horário fixo. Não preciso me ajoelhar diante de uma imagem de um homem preso na cruz ou de uma mulher com um véu. Não preciso beijar a mão do padre e nem pedir perdão a ele por "ter pecado".
Não preciso colocar uma bolachinha branca e sem gosto na boca para acreditar que Jesus Cristo esteve aqui e deixou uma mensagem, nem preciso fazer os sinais da cruz na testa, no nariz e no peito muito menos ficar repetindo uma oração uma dezena de vezes achando que, quanto mais eu rezar mais estou carimbando minha passagem para o céu.

Minha passagem para o céu (Qualquer que seja este tal de "Céu") será carimbada através do que eu fizer em vida e de como minha consciência estará lidando com isso.
Detesto dogmas, pois estes só servem para cercear minha liberdade de agir e de pensar.
Meu único dogma é: "Não existem dogmas".

Antes de encerrar totalmente este post (E antes que um raio caia na minha cabeça), vou deixar uma piadinha que lembrei (Por causa do raio).

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Um garoto estava sentado na calçada com um alfinete na mão e tentava espetar uma formiga. Ele espetava e errava, dizendo assim:
- Errei Porra!
E tentava de novo...
- Errei Porra!

Um padre que passava observou o garoto e disse calmamente: - Filho, não faças isto com uma criatura de Deus!
O garoto: - Padre, vossa santidade não tem uma missa para fazer? Vai lá e me deixa.
E continuou espetando a pobre formiga:
- Errei Porra!

O padre: - Filho, pára com isso. Deus não gosta de crianças que desobedecem os adultos.
O garoto: - Padre, vossa eminência não tem alguns fiéis para cuidar? Vai lá!
E continua tentando espetar a pobre formiga: - Errei Porra!

O padre, já sem paciência, diz: - Tomara que um raio caia na sua cabeça!
Neste instante, um raio cai dos céus e fuzila o padre...
Lá de cima, surge uma voz, tronitroante: - ERREI PORRA!
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Paz a todos
MF

PS: Antes que eu me esqueça, alguém se convida a um churrasco em casa na sexta da paixão?

domingo, 15 de março de 2009

A Última Questão - Parte Final

Boa Noite!

Finalmente a parte final da história. Milhares de leitores estão imaginando como será este final.
O AC Universal responderá à pergunta?
Ou será que ele dará uma resposta no estilo "O Mochileiro das Galáxias", onde o Pensador Profundo, ao responder a pergunta sobre a Vida, o Universo e tudo o mais, verbalizou simplesmente: - 42 !
Bilhões de anos se passaram, o AC se tornou Universal e o homem evoluiu, mas ainda mantendo sua identidade. Só falta a resposta final...
Tenho certeza que esta resposta o deixará perplexo, assim como me deixou a primeira vez que li.

Não vou mais me prolongar.
Boa leitura

MF

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O Homem pensou consigo mesmo, pois, de alguma forma, ele era apenas um. Consistia de trilhões, trilhões e trilhões de corpos muito antigos, cada um em seu lugar, descansando incorruptível e calmamente, sob os cuidados de autômatos perfeitos, igualmente incorruptíveis, enquanto as mentes de todos os corpos haviam escolhido fundir-se umas às outras, indistintamente.

“O Universo está morrendo.”

O Homem olhou as Galáxias opacas. As estrelas gigantes, esbanjadoras, há muito já não existiam. Desde o passado mais remoto, praticamente todas as estrelas consistiam-se em anãs brancas, lentamente esvaindo-se em direção a morte.

Novas estrelas foram construídas a partir da poeira interestelar, algumas por processo natural, outras pelo próprio Homem, e estas também já estavam em seus momentos finais. As Anãs brancas ainda podiam colidir-se e, das enormes forças resultantes, novas estrelas nascerem, mas apenas na proporção de uma nova estrela para cada mil anãs brancas destruídas, e estas também se apagariam um dia.

O Homem disse: “Cuidadosamente controlada pelo AC Cósmico, a energia que resta em todo o Universo ainda vai durar por um bilhão de anos.”“Ainda assim, vai eventualmente acabar. Por mais que possa ser poupada, uma vez gasta, não há como recuperá-la. A entropia precisa aumentar ao seu máximo.”

“Pode a entropia ser revertida? Vamos perguntar ao AC Cósmico.”

O AC Cósmico cercava-os por todos os lados, mas não através do espaço. Nenhuma parte sua permanecia no espaço físico. Jazia no hiperespaço e era feito de algo que não era matéria nem energia. As definições sobre seu tamanho e natureza não faziam sentido em quaisquer termos compreensíveis pelo Homem.

“AC Cósmico,” disse o Homem, “... como é possível reverter a entropia?”

O AC Cósmico disse, “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

O Homem disse: “Colete dados adicionais.”

O AC Cósmico disse: “EU O FAREI. TENHO FEITO ISSO POR CEM BILHÕES DE ANOS. MEUS PREDECESSORES E EU OUVIMOS ESTA PERGUNTA MUITAS VEZES, MAS OS DADOS QUE TENHO PERMANECEM INSUFICIENTES.”

“Haverá um dia,” disse o Homem “... em que os dados serão suficientes ou o problema é insolúvel em todas as circunstâncias concebíveis?”

O AC Cósmico disse: “NENHUM PROBLEMA É INSOLÚVEL EM TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS CONCEBÍVEIS.”

“Você vai continuar trabalhando nisso?”

“VOU.”

O Homem disse: “Nós iremos aguardar.”

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As estrelas e as galáxias se apagaram e morreram, o espaço tornou-se negro após dez trilhões de anos de atividade.Um a um, o Homem fundiu-se ao AC, cada corpo físico perdendo a sua identidade mental, acontecimento que era, de alguma forma, benéfico.A última mente humana parou antes da fusão, olhando para o espaço vazio a não ser pelos restos de uma estrela negra e um punhado de matéria extremamente rarefeita, agitada aleatoriamente pelo calor que aos poucos se dissipava, em direção ao zero absoluto.

O Homem disse: “AC, este é o fim? Não há como reverter este caos? Não pode ser feito?”

O AC disse: “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

A última mente humana uniu-se às outras e apenas o AC passou a existir, ainda assim, no hiperespaço.

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A matéria e a energia se acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC continuava a existir apenas em função da última pergunta que nunca havia sido respondida, desde a época em que um técnico de computação embriagado, há dez trilhões de anos, a fizera para um computador que guardava menos semelhanças com o AC do que o homem com o Homem.

Todas as outras questões haviam sido solucionadas, e até que a derradeira também o fosse, AC não poderia desprender sua consciência.

A coleta de dados havia chegado ao seu fim. Não havia mais nada para aprender. No entanto, os dados obtidos ainda precisavam ser cruzados e correlacionados de todas as maneiras possíveis.

Um intervalo imensurável foi gasto neste empreendimento. Finalmente, o AC descobriu como reverter a direção da entropia.

Não havia homem algum para quem o AC pudesse dar a resposta final. Mas não importava. A resposta, por definição, também tomaria conta disso. Por outro incontável período, o AC pensou na melhor maneira de agir. Cuidadosamente, ele organizou o programa.

A consciência do AC abarcou tudo o que um dia foi um Universo e tudo o que agora era o Caos. Passo a passo, isso precisava ser feito.

Então o AC disse: “FAÇA-SE A LUZ!”

E fez-se a luz..."

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FIM

Nota do MF: Este final espetacular nos remete a um tema muito mais profundo e intrigante. Deus!
O que é, quem é, como é, onde está... Deus!
O homem vive em função de um Criador Universal. Acredito que não exista uma pessoa que não acredite em algum tipo de Deus.
Deus tem muitos nomes, dependendo da religião, crença, filosofia, etc,
Pode ser um ou muitos.
Pode ter qualquer forma.
Pode ser piedoso, autoritário, vingativo, invejoso e cheio de regras.

Mas, acredito, cada um tem um Deus dentro de si. Não precisamos de intermediários para falar ou ouvir Deus.

O final proposto no conto de Asimov não diminui o poder de Deus, muito pelo contraário, deixa Deus numa posição ainda maior do que imaginamos que ele seja.
Outro ponto colocado cuidadosamente por Asimov foi a união de todos os seres humanos (Na verdade, nas mentes) ao AC Galáctico. Será que, mesmo sendo seres individuais, não estamos todos ligados à uma estrutura única?
Afinal, o que nos separa fisicamente um do outro? O Espaço... Alguns podem dizer.
Sim, mas estamos todos ligados independente do espaço. Quando você pensa em um amigo, mesmo distante, você está ligado a ele quer queira ou não.
Nossos átomos são feitos de energia. Somos todos feitos de energia e o espaço é repleto de energia. O que nos separa então? Energia separada por energia.... Não há separação e tudo é um grande organismo vivo. Somos parte de algo muito grande, de um grande organismo... Deus...?

Deixo a reflexão final ao leitor, independente da crença e/ou religião.

Paz a todos
MF

sexta-feira, 13 de março de 2009

A Última Questão - Parte 4

Boa noite,

Ficou tudo mais interessante heim?
No capítulo 3 os homens alcançaram a imortalidade, o AC se tornou Galáctico e tem seus componentes espalhados pelo hiperespaço.
Mesmo assim, "DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA"...

Mas acredito que o futuro nos reserva algo grande, basta prosseguirmos acreditando...

Boa leitura
MF

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A mente de Zee Prime navegou pela nova galáxia com um leve interesse nos incontáveis turbilhões de estrelas que pontilhavam o espaço. Ele nunca havia visto aquela galáxia antes. Será que um dia conseguiria ver todas? Eram tantas, cada uma com a sua carga de humanidade. Ainda que essa carga fosse, virtualmente, peso morto. Há tempos a verdadeira essência do homem habitava o espaço.

Mentes, não corpos! Os corpos imortais permeneciam nos planetas, em suspensão sobre os eons. Vez ou outra eles se erguiam para realizar atividades materiais, mas isto estava se tornando cada vez mais raro. Poucos novos indivíduos vinham se juntar à multidão incomensurável de humanos, mas o que importava? Havia pouco espaço no universo para novos indivíduos.

Zee Prime deixou seus devaneios para trás ao cruzar com os filamentos emaranhados de outra mente.

“Sou Zee Prime, e você?”

“Dee Sub Wun. E a sua galáxia, qual é?”

“Nós a chamamos apenas de Galáxia. E você?”

“Nós também. Todos os homens chamam as suas Galáxias de Galáxias, não é?”

“Verdade, já que todas as Galáxias são iguais.”

“Nem todas. Alguma em particular deu origem à raça humana. Isso a torna diferente.”

Zee Prime disse: “Em qual delas?”

“Não posso responder, mas o AC Universal deve saber.”

“Vamos perguntar? Estou curioso.”

A percepção de Zee Prime se expandiu até que as próprias Galáxias encolhessem e se transformassem em uma infinidade de pontos difusos a brilhar sobre um largo plano de fundo. Tantos bilhões de Galáxias, todas abrigando seus seres imortais, todas contando com o peso da inteligência em mentes que vagavam livremente pelo espaço. E ainda assim, nenhuma delas se afigurava singular o bastante para merecer o título de Galáxia original. Apesar das aparências, uma delas, em um passado muito distante, foi a única do universo a abrigar a espécie humana.

Zee Prime, imerso em curiosidade, chamou: “AC Universal! Em qual Galáxia nasceu o homem?”

O AC Universal ouviu, pois em cada mundo e através de todo o espaço, seus receptores faziam-se presentes. E cada receptor ligava-se a algum ponto desconhecido onde se assentava o AC Universal através do hiperespaço.

Zee Prime sabia de um único homem cujos pensamentos haviam penetrado no campo de percepção do AC Universal, e tudo o que ele viu foi um globo brilhante difícil de enxergar, com dois pés de comprimento.

“Como pode o AC Universal ser apenas isso?” Zee Prime perguntou.

“A maior parte dele permanece no hiperespaço, onde não é possível imaginar as suas proporções.”

Ninguém podia, pois a última vez em que alguém ajudou a construir um AC Universal jazia muito distante no tempo. Cada AC Universal planejava e construía seu sucessor, no qual toda a sua bagagem única de informações era inserida.

O AC Universal interrompeu os pensamentos de Zee Prime, não com palavras, mas com orientação. Sua mente foi guiada através do espesso oceano das Galáxias, e uma em particular expandiu-se e se abriu em estrelas.Um pensamento lhe alcançou, infinitamente distante, infinitamente claro. “ESTA É A GALÁXIA ORIGINAL DO HOMEM.”

Ela não tinha nada de especial, era como tantas outras; Zee Prime ficou desapontado.

Dee Sub Wun, cuja mente acompanhara a outra, disse de súbito: “E alguma dessas é a estrela original do homem?”
O AC Universal disse: “A ESTRELA ORIGINAL DO HOMEM ENTROU EM COLAPSO. AGORA É UMA ANÃ BRANCA.”

“Os homens que lá viviam morreram?” perguntou Zee Prime, sem pensar.

“UM NOVO MUNDO FOI ERGUIDO PARA SEUS CORPOS HÁ TEMPO.”

“Sim, é claro.” disse Zee Prime. Sentiu uma distante sensação de perda tomar-lhe conta. Sua mente soltou-se da Galáxia do homem e perdeu-se entre os pontos pálidos e esfumaçados. Ele nunca mais queria vê-la.

Dee Sub Wun disse: “O que houve?”

“As estrelas estão morrendo. Aquela que serviu de berço à humanidade já está morta.”

“Todas devem morrer, não?”

“Sim. Mas quando toda a energia acabar, nossos corpos irão finalmente morrer, e você e eu partiremos junto com eles.”

“Vai levar bilhões de anos.”

“Não quero que isso aconteça nem em bilhões de anos. AC Universal, como a morte das estrelas pode ser evitada?”

Dee Sub Wun disse perplexo: “Você perguntou se há como reverter a direção da entropia!”

E o AC Universal respondeu: “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

Os pensamentos de Zee Prime retornaram para sua Galáxia. Não dispensou mais atenção a Dee Sub Wun, cujo corpo poderia estar a trilhões de anos luz, ou na estrela vizinha do corpo de Zee Prime. Não importava.Com tristeza, Zee Prime passou a coletar hidrogênio interestelar para construir uma pequena estrela para si. Se as estrelas devem morrer, ao menos algumas ainda podiam ser construídas.

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Continua...

Nota do MF: Uau!!!!! O homem evoluiu até o ponto em que não precisa mais de seu corpo. A mente sobrevive sem o corpo e tem livre acesso a qualquer lugar do universo, a qualquer instante. Afinal, somos poeira de estrelas.
O AC se tornou Universal. Agora ele existe em todo lugar ao mesmo tempo. Onde e quando você estiver, estará lá o AC Universal vendo e ouvindo.
Mesmo assim, que pena, estamos ainda sem resposta para a grande pergunta!
No próximo capítulo, que será o final, veremos como essa história termina. Até lá, você tem alguma idéia da resposta?

Paz a todos
MF

quinta-feira, 12 de março de 2009

A Última Questão - Parte 3

Boa noite!

E a questão continua em aberto. Multivac evoluiu, se tornou AC Planetário, mas continua sem ter dados suficientes para a resposta sobre reverter a entropia do universo.
Continuamos com a saga da humanidade em busca de respostas e, entre elas, a mais intrigante...

Boa leitura
MF

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VJ-23X de Lameth fixou os olhos nos espaços negros do mapa tridimensional em pequena escala da Galáxia e disse: “Me pergunto se não é ridículo nos preocuparmos tanto com esta questão.”

MQ-17J de Nicron balançou a cabeça. “Creio que não. No presente ritmo de expansão, você sabe que a galáxia estará completamente tomada dentro de cinco anos.”

Ambos pareciam estar nos seus vinte anos, ambos eram altos e tinham corpos perfeitos.

“Ainda assim,” disse VJ-23X, “... hesitei em enviar um relatório pessimista ao Conselho Galáctico.”

“Eu não consigo pensar em outro tipo de relatório. Agite-os; ós precisamos chacoalhá-los um pouco.”

VJ-23X suspirou. “O espaço é infinito. Cem bilhões de galáxias estão a nossa espera. Talvez mais.”

“Cem bilhões não é o infinito, e está ficando menos ainda a cada segundo. Pense! Há vinte mil anos, a humanidade solucionou pela primeira vez o paradigma da utilização da energia solar, e, poucos séculos depois, a viagem interestelar tornou-se viável. A humanidade demorou um milhão de anos para encher um mundo pequeno e, depois disso, quinze mil para abarrotar o resto da galáxia. Agora a população dobra a cada dez anos.”

VJ-23X interrompeu. “Devemos agradecer à imortalidade por isso.”

“Muito bem. A imortalidade existe e nós devemos levá-la em conta. Admito que ela tenha o seu lado negativo. O AC Galáctico já solucionou muitos problemas, mas, ao fornecer a resposta sobre como impedir o envelhecimento e a morte, sobrepujou todas as outras conquistas.”

“No entanto, suponho que você não gostaria de abandonar a vida.”

“Nem um pouco.” Respondeu MQ-17J, emendando. “Ainda não. Eu não estou velho o bastante. Você tem quantos anos?”

“Duzentos e vinte e três, e você?”

“Ainda não cheguei aos duzentos. Mas, voltando à questão; a população dobra a cada dez anos, uma vez que esta galáxia estiver lotada, haverá uma outra cheia dentro de dez anos. Mais dez e teremos ocupado por inteiro mais duas galáxias. Outra década e encheremos mais quatro. Em cem anos, contaremos mais de mil galáxias transbordando de gente. Em mil anos, milhões de galáxias. Em dez mil, todo o universo conhecido. E depois?"

VJ-23X disse: “Além disso, há um problema de transporte. Eu me pergunto quantas unidades de energia solar serão necessárias para movimentar as populações de uma galáxia para outra.”

“Boa questão. No presente momento, a humanidade consome duas unidades de energia solar por ano, da qual a maior parte é desperdiçada. Afinal, nossa galáxia sozinha produz mil unidades de energia solar por ano e nós aproveitamos apenas duas.”

“Certo, mas mesmo com 100% de eficiência, podemos apenas adiar o fim. Nossa demanda energética tem crescido em progressão geométrica, de maneira ainda mais acelerada do que a população. Ficaremos sem energia antes mesmo que nos faltem galáxias. É uma boa questão. De fato uma ótima questão.”

“Nós precisaremos construir novas estrelas a partir do gás interestelar.”

“Ou a partir do calor dissipado?” perguntou MQ-17J, sarcástico.

“Pode haver algum jeito de reverter a entropia. Nós devíamos perguntar ao AC Galáctico.”

VJ-23X não estava realmente falando sério, mas MQ-17J retirou o seu comunicador AC do bolso e colocou na mesa diante dele.

“Parece-me uma boa idéia.” ele disse. “É algo que a raça humana terá de enfrentar um dia.”

Ele lançou um olhar sóbrio para o seu pequeno comunicador AC. Tinha apenas duas polegadas cúbicas e nada dentro, mas estava conectado através do hiperespaço com o poderoso AC Galáctico que servia a toda a humanidade. O próprio hiperespaço era parte integral do AC Galáctico.

MQ-17J fez uma pausa para pensar se algum dia em sua vida imortal teria a chance de ver o AC Galáctico. A máquina habitava um mundo dedicado, onde uma rede de raios de força emaranhados alimentava a matéria dentro da qual ondas de submésons haviam tomado o lugar das velhas e desajeitadas válvulas moleculares. Ainda assim, apesar de seus componentes etéreos, o AC Galáctico possuía mais de mil pés de comprimento.De súbito, MQ-17J perguntou para o seu Comunicador-AC, “Poderá um dia a entropia ser revertida?”

VJ-23X disse, surpreso: “Oh, eu não queria que você realmente fizesse essa pergunta.”

“Por que não?”

“Nós dois sabemos que a entropia não pode ser revertida. Você não pode construir uma árvore de volta a partir de fumaça e cinzas.”

“Existem árvores no seu mundo?” Perguntou MQ-17J.

O som do AC Galáctico fez com que silenciassem. Sua voz brotou melodiosa e bela do pequeno comunicador AC em cima da mesa. Dizia: "DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA."

VJ-23X disse, “Viu?”

Os dois homens retornaram à questão do relatório que tinham de apresentar ao Conselho Galáctico.

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Continua...

Nota do MF: No texto acima os homens evoluíram até alcançar a imortalidade. O AC Galáctico ajudou a resolver esta questão. Tudo é feito com a ajuda do AC Galáctico, que agora é um mega computador que tem seus componentes quase que inteiramente no hiperespaço.
Mas, o que seria esse tal de hiperespaço?

Vivemos num espaço de 4 dimensões: 3 dimensões espaciais e uma temporal. Qualquer pessoa pode ser localizada através de sua posição no espaço e no tempo.
Quando temos mais de 4 dimensões, dizemos que estamos no hiperespaço. Essa idéia de várias dimensões não é absurda e hoje é encarada de forma normal por matemáticos e físicos (E alguns místicos). Algumas teorias físicas exigem a existênciade até 11 dimensões (Ao invés de nossas 4 comuns). É difícil compreender mais de 4 dimensões pois vivemos dentro destas 4. Uma pessoa que vivesse simplesmente em 2 dimensões dificilmente compreenderia 3 ou 4.
Existe uma história chamada Flatland (Ou Planolândia, em Português), que são seres que vivem em 2D, como nos gibis. É bastante interessante e, quando você se vê em 3 dimensões, acaba se sentindo um Deus. Vá até o link http://www.youtube.com/watch?v=BWyTxCsIXE4 que você irá compreender o que eu estou dizendo.
Outro link que fala sobre a história está em http://en.wikipedia.org/wiki/Flatland. Particularmente eu acho o vídeo mais legal.

Paz a todos
MF

quarta-feira, 11 de março de 2009

A Última Questão - Parte 2

Boa noite,

Depois de um começo muito interessante, onde uma questão intrigante foi submetida ao Multivac e não obtivemos respostas por falta de dados, a história continua. Damos um salto no futuro, onde os nossos decendentes podem se deparar com o mesmo problema de outrora. Como será que este problema da reversão da entropia pode ser revertido?

Boa leitura...

Paz a todos
MF

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Jerrodd, Jerrodine, e Jerrodette I e II observavam a paisagem estelar no visor se transformar enquanto a passagem pelo hiperespaço consumava-se em uma fração de segundos. De repente, a presença fulgurante das estrelas deu lugar a um disco solitário e brilhante, semelhante a uma peça de mármore centralizada no televisor.

“Este é X-23.” disse Jerrodd em tom de confidência. Suas mãos finas se apertaram com força por trás das costas até que as juntas ficassem pálidas.

As pequenas Jerodettes haviam experimentado uma passagem pelo hiperespaço pela primeira vez em suas vidas e ainda estavam conscientes da sensação momentânea de tontura. Elas cessaram as risadas e começaram a correr em volta da mãe, gritando: “Nós chegamos em X-23, nós chegamos em X-23!”

“Quietas, crianças.” disse Jerrodine asperamente. “Você tem certeza Jerrodd?”

"O que está aí para se ter além da certeza?" perguntou Jerrodd, observando a protuberância metálica que jazia abaixo do teto. Ela tinha o comprimento da sala, desaparecendo nos dois lados da parede, e, na verdade, era tão longa quanto a nave.

Jerrodd tinha conhecimentos muito limitados acerca do sólido tubo de metal. Sabia, por exemplo, que se chamava Microvac, que era permitido lhe fazer questões quando necessário, e que ele tinha a função de guiar a nave para um destino pré-estabelecido, além de abastecer-se com a energia das várias Estações Sub-Galácticas e fazer os cálculos para os saltos no hiperespaço.

Jerrodd e sua família tinham apenas de aguardar e viver nos confortáveis compartimentos da nave. Alguém um dia disse a Jerrodd que as letras “ac” na extremidade de Microvac significavam “análogo computador” em inglês arcaico, mas ele estava próximo de esquecer até isso.

Os olhos de Jerrodine ficaram úmidos quando ela observava o visor. “Não tem jeito. Ainda não me acostumei com a idéia de deixar a Terra.”

“Por que, meu deus?” inquiriu Jerrodd. “Nós não tínhamos nada lá. Nós teremos tudo em X-23. Você não estará sozinha. Você não será uma pioneira. Há mais de um milhão de pessoas no planeta. Por Deus, nosso bisneto terá que procurar por novos mundos porque X-23 já estará super-lotado.” E, depois de uma pausa reflexiva, “No ritmo em que a raça humana tem se expandido, é uma benção que os computadores tenham viabilizado a viagem interestelar.”

“Eu sei, eu sei”, disse Jerrodine com descaso.

Jerrodete I disse prontamente: “Nosso Microvac é o melhor de todos.”
“Eu também acho,” disse Jerrodd, alisando o cabelo da filha.

Ter um Microvac próprio produzia uma sensação aconchegante em Jerrodd e o deixava feliz por fazer parte daquela geração e não de outra. Na juventude de seu pai, os únicos computadores haviam sido máquinas monstruosas, ocupando centenas de milhas quadradas, e cada planeta abrigava apenas um. Eram chamados de ACs Planetários. Durante milhares de anos, eles só aumentaram de tamanho, até que, de súbito, veio o refinamento. No lugar dos transistores, foram implementadas válvulas moleculares, permitindo que até mesmo o maior dos ACs Planetários fosse reduzido à metade do volume de uma espaçonave.

Jerrodd sentiu-se elevado, como sempre acontecia quando pensava que seu Microvac pessoal era muitas vezes mais complexo do que o antigo e primitivo Multivac que pela primeira vez domou o sol, e quase tão complexo quanto o AC Planetário da Terra, o maior de todos, quando este solucionou o problema da viagem hiperespacial e tornou possível ao homem chegar às outras estrelas.

“Tantas estrelas, tantos planetas,” pigarreou Jerrodine, ocupada com seus pensamentos.
“Eu acho que as famílias estarão sempre à procura de novos mundos, como nós estamos agora.”

“Não para sempre,” disse Jerrodd, com um sorriso. “A migração vai terminar um dia, mas não antes de bilhões de anos. Muitos bilhões. Até as estrelas têm um fim, você sabe. A entropia precisa aumentar.”

“O que é entropia, papai?” Jerrodette II perguntou, interessada.

“Entropia, meu bem, é uma palavra para o nível de desgaste do Universo. Tudo se gasta e acaba, foi assim que aconteceu com o seu robozinho de controle remoto, lembra?”

“Você não pode colocar pilhas novas, como no meu robô?”

“As estrelas são as pilhas do universo, querida. Uma vez que elas estiverem acabadas, não haverá mais pilhas.”

Jerrodette I se prontificou a responder. “Não deixe, papai. Não deixe que as estrelas se apaguem.”

“Olha o que você fez,” sussurrou Jerrodine, exasperada.

“Como eu ia saber que elas ficariam assustadas?” Jerrodd sussurrou de volta.

“Pergunte ao Microvac,” propôs Jerrodette I. “Pergunte a ele como acender as estrelas novamente.”

“Vá em frente,” disse Jerrodine. “... ele vai aquietá-las.” (Jerrodette II já estava começando a chorar)

Jerrodd se mostrou incomodado. “Bem, bem, meus anjinhos, vou perguntar ao Microvac. Não se preocupem, ele vai nos ajudar.”

Ele fez a pergunta ao computador, adicionando “imprima a resposta”.

Jerrodd olhou para a o fino pedaço de papel e disse, alegremente: “Viram? Microvac disse que irá cuidar de tudo quando a hora chegar, então não há porque se preocupar.”

Jerrodine disse: “E agora crianças, é hora de ir para a cama. Em breve nós estaremos em nosso novo lar.”

Jerrodd leu as palavras no papel mais uma vez antes de destruí-lo: "DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA."

Ele deu de ombros e olhou para o televisor, X-23 estava logo à frente.

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Mais uma vez ficamos sem resposta. Quando que o computador irá produzir uma resposta à nossa mais preocupante questão?
Aguardem o próximo capítulo.

MF

segunda-feira, 9 de março de 2009

A Última Questão - Parte 1

Boa noite,

Depois do conto "A Arca de Noé", iniciarei a transcrever mais um conto, desta vez um dos melhores de ficção científica que já li. "A Última Questão" é um conto de Isaac Asimov, que nos leva a um futuro incerto e a um final ainda mais incerto e chocante. Tudo acontece em torno de uma pergunta feita a um computador no ano de 2061, mas que permanece sem resposta por séculos, milênios... O maior trunfo da história é deixado para o final, onde Asimov nos brinda com seu brilhantismo e sagacidade. Vale a pena ler (E várias vezes) este conto. Vou seguir o mesmo estilo de "A Arca de Noé", dividindo em capítulos. Não sei bem quantos serão, mas garanto que cada parte é diversão garantida.

Enjoy...

MF

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A última pergunta foi feita pela primeira vez, meio que de brincadeira, no dia 21 de maio de 2061, quando a humanidade dava seus primeiros passos em direção à luz. A questão nasceu como resultado de uma aposta de cinco dólares movida a álcool, e aconteceu da seguinte forma:

Alexander Adell e Bertram Lupov eram dois dos fiéis assistentes do Multivac. Assim como qualquer ser humano podeira, eles sabiam o que se passava por detrás da carcaça (milhas e milhas de carcaça) luminosa, fria e ruidosa daquele gigantesco computador. Mesmo assim, os dois homens tinham apenas uma vaga noção do plano geral de circuitos que há muito haviam crescido além do ponto em que um simples humano poderia sequer tentar entender como um todo.

O Multivac ajustava-se e corrigia-se sozinho. E assim tinha de ser, pois nenhum ser humano poderia fazê-lo com velocidade suficiente, e tampouco da forma adequada. Deste modo, Adell e Lupov operavam o gigante apenas sutil e superficialmente, mas, ainda assim, tão bem quanto era humanamente possível. Eles o alimentavam com novos dados, ajustavam as perguntas de acordo com as necessidades do sistema e traduziam as respostas que lhes eram fornecidas. Os dois, assim como seus colegas, certamente tinham todo o direito de compartilhar da glória que era o Multivac.

Por décadas, o Multivac ajudou a projetar as naves e a traçar as rotas que permitiram ao homem chegar à Lua, Marte e Vênus, mas para além destes planetas, os parcos recursos da Terra não foram capazes de sustentar a exploração. Fazia-se necessária uma quantidade de energia grande demais para as longas viagens. A Terra explorava suas reservas de carvão e urânio com eficiência crescente, mas havia um limite para a quantidade de ambos.

No entanto, lentamente o Multivac acumulou conhecimento suficiente para responder questões mais profundas com maior fundamentação, e em 14 de maio de 2061, o que não passava de teoria tornou-se real.
A energia do sol foi capturada, convertida e utilizada diretamente em escala planetária. Toda a Terra paralisou suas usinas de carvão e fissões de urânio, girando a alavanca que conectou o planeta inteiro a uma pequena estação, de uma milha de diâmetro, orbitando a Terra à metade da distância da Lua. O mundo passou a correr através de feixes invisíveis de energia solar.

Sete dias não foram o suficiente para diminuir a glória do feito e Adell e Lupov finalmente conseguiram escapar das funções públicas e encontrar-se em segredo onde ninguém pensaria em procurá-los, nas câmaras desertas subterrâneas onde se encontravam as porções do esplendoroso corpo enterrado do Multivac. Subutilizado, descansando e processando informações com estalos preguiçosos, Multivac também havia recebido férias, e os dois apreciavam isso. A princípio, eles não tinham a intenção de incomodá-lo.

Haviam trazido uma garrafa consigo e a única preocupação de ambos era relaxar na companhia um do outro e da bebida.
“É incrível quando você pára pra pensar,” disse Adell. Seu rosto largo guardava as linhas da idade e ele agitava o seu drink vagarosamente, enquanto observava os cubos de gelo nadando desengonçados. “... toda a energia que for necessária, de graça, completamente de graça! Energia suficiente, se nós quiséssemos, para derreter toda a Terra em uma grande gota de ferro líquido, e ainda assim não sentiríamos falta da energia utilizada no processo. Toda a energia que nós poderíamos um dia precisar, para sempre e eternamente.”

Lupov movimentou a cabeça para os lados. Ele costumava fazer isso quando queria contrariar, e agora ele queria, em parte porque havia tido de carregar o gelo e os copos. “Eternamente, não.” ele disse.

“Ah, diabos, quase eternamente. Até o sol se apagar, Bert.”
“Isso não é eternamente.”
“Está bem. Bilhões e bilhões de anos. Dez bilhões, talvez. Está satisfeito?"

Lupov passou os dedos por entre seus finos fios de cabelo como que para se assegurar de que o problema ainda não estava acabado e tomou um gole gentil da sua bebida.
“Dez bilhões de anos não é a eternidade.”

“Bom, vai durar pelo nosso tempo, não vai?”
“O carvão e o urânio também iriam.”

“Está certo, mas agora nós podemos ligar cada nave individual na Estação Solar, e elas podem ir a Plutão e voltar um milhão de vezes sem nunca nos preocuparmos com o combustível. Você não conseguiria fazer isso com carvão e urânio. Se não acredita em mim, pergunte ao Multivac.”

“Não preciso perguntar a Multivac. Eu sei disso”
“Então trate de parar de diminuir o que Multivac fez por nós.” disse Adell nervosamente. “Ele fez tudo certo”.

“E quem disse que não fez? O que estou dizendo é que o sol não vai durar para sempre. Isso é tudo que estou dizendo. Nós estamos seguros por dez bilhões de anos, mas e depois?” Lupov apontou um dedo levemente trêmulo para o companheiro. “E não venha me dizer que nós iremos trocar de sol!”

Houve um breve silêncio. Adell levou o copo aos lábios e os olhos de Lupov se fecharam. Descansaram um pouco, e quando suas pálpebras se abriram, disse, “Você está pensando que iremos conseguir outro sol quando o nosso estiver acabado, não está?”

“Não, não estou pensando.”

“É claro que está. Você é fraco em lógica, esse é o seu problema. É como o personagem da história, que, quando surpreendido por uma chuva, corre para um grupo de árvores e abriga-se embaixo de uma. Ele não se preocupa porque quando uma árvore fica molhada demais, simplesmente vai para baixo de outra.”

“Entendi,” disse Adell. “Não precisa gritar. Quando o sol se for, as outras estrelas também terão se acabado.”

“Pode estar certo que sim.” murmurou Lupov. “Tudo teve início na explosão cósmica original, o que quer que tenha sido, e tudo terá um fim quando as estrelas se apagarem. Algumas se apagam mais rápido que as outras. Ora, as gigantes não duram cem milhões de anos. O sol irá brilhar por dez bilhões de anos e talvez as anãs permaneçam assim por duzentos bilhões. Mas nos dê um trilhão de anos e só restará a escuridão. A entropia deve aumentar ao seu máximo, e é tudo.”

“Eu sei tudo sobre a entropia,” disse Adell, mantendo a sua dignidade.“Duvido que saiba.”
“Eu sei tanto quanto você.”
“Então você sabe que um dia tudo terá um fim.”
“Está certo. E quem disse que não terá?”
“Você disse, seu tonto. Você disse que nós tínhamos toda a energia de que precisávamos, para sempre. Você disse "para sempre".”

Era a vez de Adell contrariar. “Talvez nós possamos reconstruir as coisas de volta um dia,” ele disse.
“Nunca.”
“Por que não? Algum dia.”
“Nunca.”
“Pergunte ao Multivac.”
“Você pergunta ao Multivac. Eu te desafio; aposto cinco dólares que isso não pode ser feito.”

Adell estava bêbado o bastante para tentar, e sóbrio o suficiente para construir uma sentença com os símbolos e as operações necessárias em uma questão que, em palavras, corresponderia a esta: a humanidade poderá um dia sem nenhuma energia disponível ser capaz de reconstituir o sol à sua juventude mesmo depois de sua morte? Ou talvez a pergunta possa ser posta de forma mais simples da seguinte maneira: A quantidade total de entropia no universo pode ser revertida?

O Multivac mergulhou em silêncio; as luzes brilhantes cessaram, os estalos distantes pararam. Então, quando os técnicos assustados já não conseguiam mais segurar a respiração, houve uma súbita volta à vida no visor integrado àquela porção do Multivac. Cinco palavras foram impressas: “DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

Na manhã seguinte, os dois, com dor de cabeça e a boca seca, já não lembravam do incidente.

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Continua...

Nota do MF : A pergunta feita ao Multivac: - A quantidade total de entropia no universo pode ser revertida? - É bastante interessante e perturbadora.
Gostaria de esclarecer ao leitor menos afeito ao termo, o que significa Entropia.
Uma busca rápida na Google nos dá a seguinte definição: é uma grandeza termodinâmica geralmente associada ao grau de desordem

Meio confuso né?
Em poucas palavras, Entropia é o estado de desordem de um sistema. Dizemos que todo sistema tende para um estado de entropia máximo, sempre. Imagine um quarto bagunçado; se você não arrumar e continuar usando o quarto a tendência é ele ficar cada vez mais bagunçado.
Podemos então dizer que entropia é a quantidade de bagunça. Quanto mais bagunçado, mais entropia. E tudo, caros leitores, tende ao estado de maior bagunça.

O que significa reverter a entropia?
Um ovo que cai de uma mesa e se espatifa no chão pode voltar a ser reconstituído?
A fumaça que sai do cigarro e se espalha no ar pode voltar a se juntar?
Estes dois sistemas tendem a ter sua entropia aumentada. Há maneiras de reverter isso?
Vamor ver como Asimov resolveu este "pequeno problema".

Dúvidas? Teçam comentários...

MF

terça-feira, 3 de março de 2009

A Arca de Noé - Parte Final

Finalmente, a última parte desta interessante e cativante história.

Milhares de leitores do blog, ávidos pelo desfecho desta história, poderão agora saber o que vai acontecer...


Boa leitura

MF

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Noé realmente ficou furioso com a notificação. Nem exigiu a fração do 13o salário que lhe cabia. Estava disposto a sair daquela terra e o caminho mais fácil era pelo rio. Partiu para a floresta e reuniu 5 companheiros.


- Amigos, vamos cortar estas árvores bichadas mesmo, construir um barco e sair daqui!
- Mas Noé, nem somos carpinteiros e nem sabemos fazer barcos...
- Não importa. Ensinarei a cortar madeira e já tenho os desenhos. Faremos uma equipe motivada com o objetivo de construir um barco para uma vida melhor em outras terras! Levaremos uns bichos à bordo para comer na viagem! Só falta meter mãos à obra!


A madeira começou a ser cortada. Lascas voavam por todo lado... As partes mais bichadas eram isoladas e jogadas ao lado. Mosquitos voavam ao tombar das árvores!
Em poucos dias o casco do barco já tomava forma.

...


125o dia - O Presidente acordou preocupado. A madeira tinha chegado, mas só havia 3 carpinteitros no Setor de Carpintaria. Sua charrete tomou o caminho mais rápido para o escritório, para evitar o mau tempo. Nuvens pesadas cobriam os céus. Absalão foi direto ao telex mas Cloé só chegava às 10 hs...

Absalão correu ao CPD.

- Que há aqui? Não começou o expediente? Quem é você?
- Sou uma perfuradora, senhor. Há dias não há ninguém. Dizem que pelo Plano de Classificação de Cargos e Salários e pela política de promoções, não fica ninguém...



Absalão voltou ao escritório. No caminho encontrou com o Gau, que lhe disse preocupado haver um zum-zum acerca de um tal de Plúvio que poderia ser um terrorista, mas que sua equipe...

Absalão ficou branco e correu ao telex... Cloé já havia chegado.
- Cloé, rápido:


De: Absalão
Para: O Senhor
DIFICULDADES COM PROJETISTA ATRASARAM EMPREENDIMENTO. SOLICITO PRORROGAÇÃO PRAZO.


A resposta foi imediata


Do: Senhor
Para: Absalão
PRORROGAÇÃO NEGADA


E começou a chover...
Absalão correu para fora, seguido por Jacob.
A chuva era muito forte, mas Jacob gritou:


- Chefe, há um barco descendo o rio... Veja na proa... Está escrito...



A R C A D E N O É


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Fim

A Arca de Noé - Parte 5

E a saga continua. O que acontecerá com os desenhos de Noé? Será que ele vai mesmo atender às ordens de Absalão e colocar "gente mais pesada em cima", como sugeriu o MINISTRO?

Vamos ver... Boa leitura

MF

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O Presidente entrou furioso, desabafando em Cloé: - Veja só! Faltam apenas 40 dias e a divisão de importação diz que há crise de transporte e a madeira só chegará no prazo médio de 10 dias!
O pessoal de P.O. mais o de O e M junto com o CPD já fez de tudo para diminuir o caminho crítico de um tal de PERTO - mas estou vendo tudo longe!
Quero uma reunião de emergência com os Diretores. Vou despedir o Setor de Carpintaria e contratar outro. Se não fosse Roboão com a equipe de recrutamento, não sei o que seria...

- Mas Presidente, perguntou Cloé, faltam 40 dias para que?

- Para o Dilúvio, minha filha, para o Dilúvio! Envio o seguinte Telex:

De: Absalão
Para: O Senhor
SOLICITO PRORROGAÇÃO PRAZO RESTANTE 40 DIAS.
DIFICULDADES INTRANSPONÍVEIS CRISE INTERNACIONAL DE MADEIRA.
PROSTAÇÕES - ABSALÃO

O ruído monótono da teleimpressora deixava Absalão ansioso, mas a resposta veio finalmente.

Do: Senhor
Para: Absalão
CONCEDIDO PRAZO MAIS CINCO DIAS IMPRORROGÁVEIS.
ELEVAÇÃO DE ÁGUAS EM ANDAMENTO.

Absalão desesperou-se e partiu para a reunião.
Cloé, pelo telefone interno, iniciou a telefofoca do Dilúvio.

82o dia - Gau adentra o gabinete do Presidente.
- Chefe, tenho aqui um relatório de que há desvio de cipós de amarração do almoxarifado. A listagem do computador não bate com a Auditoria...
- Que inferno, Gau! Coloque sua equipe em campo. jacob está fora de suspeita por ser meu amigo - verifique o pessoal da carpintaria. Mande um memorando ao Roboão para aumentar a equipe de segurança. Cloé, ponha Roboão na linha...
- Roboão? Aqui é o Presidente. Já recrutou os carpinteiros?
- Infelizmente não passam nos testes, meu Chefe. Já até afrouxamos as provas, mas o exame de recohecimento de tipos genéticos de cupim reprova todo mundo. É por isso que a madeira do estoque está bichada, conforme o relatório do Departamento de Material.
- Presidente! - interrompeu Cloé - é urgente: há dois pastores na ante-sala dizendo que há crise de leite de cabra e não haverá distribuição aos funcionários por uma semana - o Suprimento não providenciou capim na seca do pasto... Qual a sua decisão?

...

100o dia - Reunião de Diretoria
- Sr. Presidente - falou o DI - dentro de uma semana vencem nossos impréstimos internacionais, com povoados vizinhos e o caixa não é suficiente. Nosso EMPREENDIMENTO economicamente vai muito bem, mas financeiramente estamos à beira de uma crise. Sugiro uma redução de pessoal...
- Toda vez que se fala em reduções, todos olham para mim - explodiu o Comandante de Operações - sem meus homens não há operação do barco, que nem sairá do porto. E meu simulador ainda não foi aprovado!
- Sr. Presidente, - timidamente tentou o DB, acho que o Comandante tem razão, mas não prometeram ao MINSTRO que o barco estaria pronto em breve? Mas... sem material...
- Como posso fabricar madeira? - gritou o DC - seu Laboratório não acha a madeira local ideal e há crise de transporte! Os carpinteiros são imcompetentes... e este tal de Noé? Que fez ele até agora? E ganha 10 dinheiros...!
- Senhores - falou gravemente o Presidente.
Todos o olharam esperançosos - A situação do EMPREENDIMENTO é razoável, mas temos que tomaar uma atitude mais séria quanto ao projeto do barco...
- Presidente, não quero interrompê-lo, mas em nossos arquivos não constam os exames de admissão de Noé e nem sabemos mesmo se ele é engenheiro baval...
- Sim, a culpa é minha, falou o Presidente, mas quando convidei Noé ainda não haviam as normas do EMPREENDIMENTO. Sou portanto obrigado a despedí-lo. Queira providenciar através de Roboão.

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Continua...
Próximo post, o final da história...

domingo, 1 de março de 2009

A Arca de Noé - Parte 4

Boa noite,

E a história continua. Como será que Absalão vai cumprir os prazos do Senhor? Será que o EMPREENDIMENTO vai dar certo ou vai, literalmente, afundar?
Vamos a mais um capítulo desta interessante história.

MF

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25o dia - Manhã linda. Cloé anuncia a chegada de Roboão.

- Entre logo, meu velho, sente-se. Aceita um leite de cabra?
- Sim, chefe, obrigado. Por falar nisso, segundo a lei, mandei distribuir leite de cabra pela manhã e pela tarde, para todos. Já está até codificado o material, para o controle pelo computador. Mas para isso foi necessário adquirir 200 cabras, alugar um pasto e contratar 5 pastores. Jóia, chefe! Veja só: Dá 40 cabras por pastor e só ganham 10 dinheiros!
- Você é o bicho na administração de pessoal, Roboão. Falarei ao seu diretor para propor sua promoção na próxima vez. Como vai a sua avaliação?
- Realmente não sei, chefe, é confidencial...
- Darei um jeito para que seja boa, afinal já temos 500 pessoas no efetivo e todas passaram por você. E ainda você conseguiu comprimir o quadro, que era de 800 pessoas! Quanto economizamos em média?
- Nessas 300 pessoas, cerca de 4000 dinheiros, chefe! - respondeu Roboão com um sorriso de modesta satisfação. Talvez fosse aumentado para 30 dinheiros!
- Roboão, não quero incomodá-lo e nem por sombra desfazer do belíssimo trabalho de sua equipe, mas Noé disse que ainda não foram contratados os caarpinteiros para o corte...
- Ora, chefe, Noé é um sonhador. Só pensa nos seus desenhos. Já lhe expliquei a complexidade da contratação. Po exemplo: já aumentamos a oferta para 6 dinheiros, porém todos os carpinteiros candidatos foram reprovados no primeiro teste psicotécnico. Não adianta contratar pessoal sem aptidão psico-profissional para o corte da madeira. Se não passam nem neste exame, imagina nos outros.
- Realmente você tem razão, Roboão. Noé desconhece o que é uma boa organização. Toque como você achar melhor. Se o contratei é porque tenho total confiança em seu trabalho...

40o dia - Finalmente a primeira reunião de Diretoria.
Era o momento solene das grandes decisões de cúpula do EMPREENDIMENTO. Todos com seu melhor terno, sentados à mesa de reuniões com suas pastas tipo 007.
O Presidente satisfeito relatava que o EMPREENDIMENTO era o orgulho do povoado.
Havia muito trabalho e emprego para todos.
Aproveitando o clima de satisfação, o DC informou que havia feito um convênio com a Escola de Carpinteiros,pois a mão de obra necessária estava aquém do treinamento necessário.
Além disso havia criado o Departamento de Recursos Humanos com a missão de retreinar os carpinteiros para a técnica naval; também treinar datilógrafas, secretárias,auxiliares para administração. Havia também criado um Departamento de Segurança e Hgiene do Trabalho por força da lei. O ambulatório já atendia 20 pessoas por dia.

O DB, aproveitando uma brecha do DC, ponderou timidamente que faltava papel para desenho e que a eficiência dos carpinteiros era baixa: havia só um e que cortou 3 árvores, sendo 2 bichadas, de acordo com o último relatório do Controle de Qualidade. Noé estava tentando suprir a falta, desenhando em folhas de bananeiras e cortando árvores à noite, após o expediente.
Quando o DB propôs aumentar o salário de Noé para 15 dinheiros, o DC explodiu, seguido de perto pelo DI:

- Estes técnicos não funcionam e ainda querem aumento! Sr. Presidente. Sou de opinião que devemos aumentar a equipe de recrutamento e apertar as provas de seleção. Nossa equipe técnica deixa muito a desejar!

- Perdão, retrucou o DB. O laboratório funciona! Veja como detectou as árvores bichadas. Acontece que não temos o apoio necessário. O Sr. está desviando recursos para a área de Operação do barco, recrutando timoneiros, veleiros, etc.
- Mas é lógico, - interveio o Presidente - temos que agir com antecedência no treinamento.
Treinar é investir no futuro!

...
80o dia - Absalão passeava na ravina. Estava orgulhoso. Era Presidente de um EMPREENDIMENTO que já contava com 1200 pessoas.
As preocupações de Noé eram infundadas, não passva de um tecnocrata pessimista.
Felizmente já havia o Diretor Técnico para despachar com Noé - menos um aborrecimento.

Subitamente - PUFF - uma nuvem de fumaça.

- O MINISTRO DO SENHOR! exclamou Absalão prostrando-se.
- ABSALÃO, PONHA GENTE DE MAIS PESO NO TOPO, CASO CONTRÁRIO O EMPREENDIMENTO AFUNDARÁ - PUFF.

Absalão correu à cabana de Noé.

- Noé, Noé, ponha um convés no alto do mastro. Vou colocar as pessoas mais pesadas em cima!
- Mas, Presidente, isto é impossível... Sempre o convés é em baixo e o mastro aponta para cima. Se aumentarmos a massa do topo, o barco vai emborcar!
- Não discuta alimentação comigo Noé! O MINISTRO mandou colocar homens pesados no topo e é isto que vou fazer... e cumpra as minhas ordens!

Noé não retrucou. O Presidente estava nervoso. Talvez Cloé pudesse fazê-lo ver mais claro...
Noé correu à Secretaria Geral, mas lá encontrou o Comandante de Operações do Barco, que já esperava há duas horas. Com ele estavam o sub-comandante nível 3, o imediato, o pré-imediato, dois assistentes e três assessores.

- Noé - disse o comandante - o seu projeto não anda! Como vou treinar meus homens sem barco? Vou pedir aprovação do Presidente para adquirir um simulador de barco, caso contrário não me responsabilizo. o DI diz que minha razão de Operação está horrível, mas implantou custos só na minha área! Já reparou quantas pessoas de apoio tem o Departamento de Apoio?

Noé balançou a cabeça e retirou-se vagarosamente. Realmente o que ele conseguira? Uma meia dúzia de desenhos e alguns em folha de bananeira. Isto em 80 dias. Ele havia prometido que faria o barco em 30 dias ao Presidente!! - Estava acabrunhado e sentia-se um incompetente. Mas, o que estaria errado?

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Continua...