Boa noite,
Depois de um começo muito interessante, onde uma questão intrigante foi submetida ao Multivac e não obtivemos respostas por falta de dados, a história continua. Damos um salto no futuro, onde os nossos decendentes podem se deparar com o mesmo problema de outrora. Como será que este problema da reversão da entropia pode ser revertido?
Boa leitura...
Paz a todos
MF
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Jerrodd, Jerrodine, e Jerrodette I e II observavam a paisagem estelar no visor se transformar enquanto a passagem pelo hiperespaço consumava-se em uma fração de segundos. De repente, a presença fulgurante das estrelas deu lugar a um disco solitário e brilhante, semelhante a uma peça de mármore centralizada no televisor.
“Este é X-23.” disse Jerrodd em tom de confidência. Suas mãos finas se apertaram com força por trás das costas até que as juntas ficassem pálidas.
As pequenas Jerodettes haviam experimentado uma passagem pelo hiperespaço pela primeira vez em suas vidas e ainda estavam conscientes da sensação momentânea de tontura. Elas cessaram as risadas e começaram a correr em volta da mãe, gritando: “Nós chegamos em X-23, nós chegamos em X-23!”
“Quietas, crianças.” disse Jerrodine asperamente. “Você tem certeza Jerrodd?”
"O que está aí para se ter além da certeza?" perguntou Jerrodd, observando a protuberância metálica que jazia abaixo do teto. Ela tinha o comprimento da sala, desaparecendo nos dois lados da parede, e, na verdade, era tão longa quanto a nave.
Jerrodd tinha conhecimentos muito limitados acerca do sólido tubo de metal. Sabia, por exemplo, que se chamava Microvac, que era permitido lhe fazer questões quando necessário, e que ele tinha a função de guiar a nave para um destino pré-estabelecido, além de abastecer-se com a energia das várias Estações Sub-Galácticas e fazer os cálculos para os saltos no hiperespaço.
Jerrodd e sua família tinham apenas de aguardar e viver nos confortáveis compartimentos da nave. Alguém um dia disse a Jerrodd que as letras “ac” na extremidade de Microvac significavam “análogo computador” em inglês arcaico, mas ele estava próximo de esquecer até isso.
Os olhos de Jerrodine ficaram úmidos quando ela observava o visor. “Não tem jeito. Ainda não me acostumei com a idéia de deixar a Terra.”
“Por que, meu deus?” inquiriu Jerrodd. “Nós não tínhamos nada lá. Nós teremos tudo em X-23. Você não estará sozinha. Você não será uma pioneira. Há mais de um milhão de pessoas no planeta. Por Deus, nosso bisneto terá que procurar por novos mundos porque X-23 já estará super-lotado.” E, depois de uma pausa reflexiva, “No ritmo em que a raça humana tem se expandido, é uma benção que os computadores tenham viabilizado a viagem interestelar.”
“Eu sei, eu sei”, disse Jerrodine com descaso.
Jerrodete I disse prontamente: “Nosso Microvac é o melhor de todos.”
“Eu também acho,” disse Jerrodd, alisando o cabelo da filha.
Ter um Microvac próprio produzia uma sensação aconchegante em Jerrodd e o deixava feliz por fazer parte daquela geração e não de outra. Na juventude de seu pai, os únicos computadores haviam sido máquinas monstruosas, ocupando centenas de milhas quadradas, e cada planeta abrigava apenas um. Eram chamados de ACs Planetários. Durante milhares de anos, eles só aumentaram de tamanho, até que, de súbito, veio o refinamento. No lugar dos transistores, foram implementadas válvulas moleculares, permitindo que até mesmo o maior dos ACs Planetários fosse reduzido à metade do volume de uma espaçonave.
Jerrodd sentiu-se elevado, como sempre acontecia quando pensava que seu Microvac pessoal era muitas vezes mais complexo do que o antigo e primitivo Multivac que pela primeira vez domou o sol, e quase tão complexo quanto o AC Planetário da Terra, o maior de todos, quando este solucionou o problema da viagem hiperespacial e tornou possível ao homem chegar às outras estrelas.
“Tantas estrelas, tantos planetas,” pigarreou Jerrodine, ocupada com seus pensamentos.
“Eu acho que as famílias estarão sempre à procura de novos mundos, como nós estamos agora.”
“Não para sempre,” disse Jerrodd, com um sorriso. “A migração vai terminar um dia, mas não antes de bilhões de anos. Muitos bilhões. Até as estrelas têm um fim, você sabe. A entropia precisa aumentar.”
“O que é entropia, papai?” Jerrodette II perguntou, interessada.
“Entropia, meu bem, é uma palavra para o nível de desgaste do Universo. Tudo se gasta e acaba, foi assim que aconteceu com o seu robozinho de controle remoto, lembra?”
“Você não pode colocar pilhas novas, como no meu robô?”
“As estrelas são as pilhas do universo, querida. Uma vez que elas estiverem acabadas, não haverá mais pilhas.”
Jerrodette I se prontificou a responder. “Não deixe, papai. Não deixe que as estrelas se apaguem.”
“Olha o que você fez,” sussurrou Jerrodine, exasperada.
“Como eu ia saber que elas ficariam assustadas?” Jerrodd sussurrou de volta.
“Pergunte ao Microvac,” propôs Jerrodette I. “Pergunte a ele como acender as estrelas novamente.”
“Vá em frente,” disse Jerrodine. “... ele vai aquietá-las.” (Jerrodette II já estava começando a chorar)
Jerrodd se mostrou incomodado. “Bem, bem, meus anjinhos, vou perguntar ao Microvac. Não se preocupem, ele vai nos ajudar.”
Ele fez a pergunta ao computador, adicionando “imprima a resposta”.
Jerrodd olhou para a o fino pedaço de papel e disse, alegremente: “Viram? Microvac disse que irá cuidar de tudo quando a hora chegar, então não há porque se preocupar.”
Jerrodine disse: “E agora crianças, é hora de ir para a cama. Em breve nós estaremos em nosso novo lar.”
Jerrodd leu as palavras no papel mais uma vez antes de destruí-lo: "DADOS INSUFICIENTES PARA RESPOSTA SIGNIFICATIVA."
Ele deu de ombros e olhou para o televisor, X-23 estava logo à frente.
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Mais uma vez ficamos sem resposta. Quando que o computador irá produzir uma resposta à nossa mais preocupante questão?
Aguardem o próximo capítulo.
MF
O Poder da Escolha e O Efeito Borboleta
Há 14 anos

3 comentários:
Cara, isso está começando a ficar complicado um tanto perturbador para alguém quem não domina nada do assunto. Puxa, esse com certeza não é um assunto discutido em rodinhas de amigos nos barzinhos por aí. Mas deixa, vamos ver até onde meu cérebro consegue acompanhar antes de travar rsrs. De uma coisa eu tenho certeza no mínino está sendo interessante.
Abs
Sim, não é um assunto trivial, e concordo, mas Asimov consegue traduzir muito bem este tema em palavras simples e de entendimento geral. Com certeza você vai conseguir acompanhar o texto. Não se prenda a detalhes.
Qualquer dúvida que tenha pode me perguntar. Se eu souber responder, faço com gosto.
Abraço
MF
Nesse momento, o pensamento mais reconfortante é o do bêbado do primeiro capítulo: até lá, já vou ter ido há muito tempo.
Por outro lado, imagine a situação (creio que é descrita n'A Máquina do Tempo de H.G. Wells) de poder viajar no tempo, até um pouquinho antes desses momentos finais do universo, ver como as coisas são e poder voltar para trás para terminar sua vida sabendo que quando você se for o universo ainda vai estar lá firme e forte. Seria instigante...
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