domingo, 15 de março de 2009

A Última Questão - Parte Final

Boa Noite!

Finalmente a parte final da história. Milhares de leitores estão imaginando como será este final.
O AC Universal responderá à pergunta?
Ou será que ele dará uma resposta no estilo "O Mochileiro das Galáxias", onde o Pensador Profundo, ao responder a pergunta sobre a Vida, o Universo e tudo o mais, verbalizou simplesmente: - 42 !
Bilhões de anos se passaram, o AC se tornou Universal e o homem evoluiu, mas ainda mantendo sua identidade. Só falta a resposta final...
Tenho certeza que esta resposta o deixará perplexo, assim como me deixou a primeira vez que li.

Não vou mais me prolongar.
Boa leitura

MF

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O Homem pensou consigo mesmo, pois, de alguma forma, ele era apenas um. Consistia de trilhões, trilhões e trilhões de corpos muito antigos, cada um em seu lugar, descansando incorruptível e calmamente, sob os cuidados de autômatos perfeitos, igualmente incorruptíveis, enquanto as mentes de todos os corpos haviam escolhido fundir-se umas às outras, indistintamente.

“O Universo está morrendo.”

O Homem olhou as Galáxias opacas. As estrelas gigantes, esbanjadoras, há muito já não existiam. Desde o passado mais remoto, praticamente todas as estrelas consistiam-se em anãs brancas, lentamente esvaindo-se em direção a morte.

Novas estrelas foram construídas a partir da poeira interestelar, algumas por processo natural, outras pelo próprio Homem, e estas também já estavam em seus momentos finais. As Anãs brancas ainda podiam colidir-se e, das enormes forças resultantes, novas estrelas nascerem, mas apenas na proporção de uma nova estrela para cada mil anãs brancas destruídas, e estas também se apagariam um dia.

O Homem disse: “Cuidadosamente controlada pelo AC Cósmico, a energia que resta em todo o Universo ainda vai durar por um bilhão de anos.”“Ainda assim, vai eventualmente acabar. Por mais que possa ser poupada, uma vez gasta, não há como recuperá-la. A entropia precisa aumentar ao seu máximo.”

“Pode a entropia ser revertida? Vamos perguntar ao AC Cósmico.”

O AC Cósmico cercava-os por todos os lados, mas não através do espaço. Nenhuma parte sua permanecia no espaço físico. Jazia no hiperespaço e era feito de algo que não era matéria nem energia. As definições sobre seu tamanho e natureza não faziam sentido em quaisquer termos compreensíveis pelo Homem.

“AC Cósmico,” disse o Homem, “... como é possível reverter a entropia?”

O AC Cósmico disse, “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

O Homem disse: “Colete dados adicionais.”

O AC Cósmico disse: “EU O FAREI. TENHO FEITO ISSO POR CEM BILHÕES DE ANOS. MEUS PREDECESSORES E EU OUVIMOS ESTA PERGUNTA MUITAS VEZES, MAS OS DADOS QUE TENHO PERMANECEM INSUFICIENTES.”

“Haverá um dia,” disse o Homem “... em que os dados serão suficientes ou o problema é insolúvel em todas as circunstâncias concebíveis?”

O AC Cósmico disse: “NENHUM PROBLEMA É INSOLÚVEL EM TODAS AS CIRCUNSTÂNCIAS CONCEBÍVEIS.”

“Você vai continuar trabalhando nisso?”

“VOU.”

O Homem disse: “Nós iremos aguardar.”

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As estrelas e as galáxias se apagaram e morreram, o espaço tornou-se negro após dez trilhões de anos de atividade.Um a um, o Homem fundiu-se ao AC, cada corpo físico perdendo a sua identidade mental, acontecimento que era, de alguma forma, benéfico.A última mente humana parou antes da fusão, olhando para o espaço vazio a não ser pelos restos de uma estrela negra e um punhado de matéria extremamente rarefeita, agitada aleatoriamente pelo calor que aos poucos se dissipava, em direção ao zero absoluto.

O Homem disse: “AC, este é o fim? Não há como reverter este caos? Não pode ser feito?”

O AC disse: “AINDA NÃO HÁ DADOS SUFICIENTES PARA UMA RESPOSTA SIGNIFICATIVA.”

A última mente humana uniu-se às outras e apenas o AC passou a existir, ainda assim, no hiperespaço.

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A matéria e a energia se acabaram e, com elas, o tempo e o espaço. AC continuava a existir apenas em função da última pergunta que nunca havia sido respondida, desde a época em que um técnico de computação embriagado, há dez trilhões de anos, a fizera para um computador que guardava menos semelhanças com o AC do que o homem com o Homem.

Todas as outras questões haviam sido solucionadas, e até que a derradeira também o fosse, AC não poderia desprender sua consciência.

A coleta de dados havia chegado ao seu fim. Não havia mais nada para aprender. No entanto, os dados obtidos ainda precisavam ser cruzados e correlacionados de todas as maneiras possíveis.

Um intervalo imensurável foi gasto neste empreendimento. Finalmente, o AC descobriu como reverter a direção da entropia.

Não havia homem algum para quem o AC pudesse dar a resposta final. Mas não importava. A resposta, por definição, também tomaria conta disso. Por outro incontável período, o AC pensou na melhor maneira de agir. Cuidadosamente, ele organizou o programa.

A consciência do AC abarcou tudo o que um dia foi um Universo e tudo o que agora era o Caos. Passo a passo, isso precisava ser feito.

Então o AC disse: “FAÇA-SE A LUZ!”

E fez-se a luz..."

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FIM

Nota do MF: Este final espetacular nos remete a um tema muito mais profundo e intrigante. Deus!
O que é, quem é, como é, onde está... Deus!
O homem vive em função de um Criador Universal. Acredito que não exista uma pessoa que não acredite em algum tipo de Deus.
Deus tem muitos nomes, dependendo da religião, crença, filosofia, etc,
Pode ser um ou muitos.
Pode ter qualquer forma.
Pode ser piedoso, autoritário, vingativo, invejoso e cheio de regras.

Mas, acredito, cada um tem um Deus dentro de si. Não precisamos de intermediários para falar ou ouvir Deus.

O final proposto no conto de Asimov não diminui o poder de Deus, muito pelo contraário, deixa Deus numa posição ainda maior do que imaginamos que ele seja.
Outro ponto colocado cuidadosamente por Asimov foi a união de todos os seres humanos (Na verdade, nas mentes) ao AC Galáctico. Será que, mesmo sendo seres individuais, não estamos todos ligados à uma estrutura única?
Afinal, o que nos separa fisicamente um do outro? O Espaço... Alguns podem dizer.
Sim, mas estamos todos ligados independente do espaço. Quando você pensa em um amigo, mesmo distante, você está ligado a ele quer queira ou não.
Nossos átomos são feitos de energia. Somos todos feitos de energia e o espaço é repleto de energia. O que nos separa então? Energia separada por energia.... Não há separação e tudo é um grande organismo vivo. Somos parte de algo muito grande, de um grande organismo... Deus...?

Deixo a reflexão final ao leitor, independente da crença e/ou religião.

Paz a todos
MF

2 comentários:

Anônimo disse...

Um conto fabuloso e profundo.
Agora que cheguei ao fim me pergunto: como não pensar nele, em Deus. (independente de qual, concordo) ele está acima de tudo, é uma força grandiosa.
Nós não existimos por si só, existe uma força muito grande que nos une a esse planeta, somos parte dele, aceitando ou não estamos ligados uns aos outros (concordo quando você diz isso) e nada podemos fazer para mudar.
Você colocou de uma forma bem bacana quando fala sobre a energia, eu não conseguiria falar tão claro e simples.
Sei que se quisermos podemos nos reconhecer com facilidade, basta ter um pouco de sensibilidade para perceber.
É ruim quando você encontra pessoas que não acredita em nada, que diz que viemos do nada...
Ás vezes travamos uma batalha interior e perdemos pelo simples fato de não aceitar o que ou quem está acima de nós.

Doug disse...

Minha reflexão:
Essa foi a melhor tentativa de unir ciência e religião que eu já vi. Vai ao encontro de tudo que conheço como Deus. Representa muito bem a união dos homens, tanto entre si, como a algo maior, representa o ser superior a quem confiamos nossas grandes dúvidas e nossa esperança de que essas dúvidas sejam respondidas, num futuro próximo ou distante.
Mas, subjetividades à parte (e já compartilhei o que penso), lembrei-me do livro "A Dança do Universo" do físico Marcelo Gleiser. Ele fala sobre as crenças de muitos povos (principalmente orientais) que pregam, ao contrário da nossa religião cristã com seu éden e seu juízo final, que as coisas são cíclicas, isto é, não há um começo ou um fim, mas ciclos que se repetem e repetem, indefinidamente. Não cheguei a ler o livro integralmente, mas me parece que ele sugere que o big bang não seria só o início do universo, mas um ponto singular em um ciclo que cria e destrói o universo repetidamente. Muito interessante. De novo, espero já ter ido embora há muito tempo quando esse ponto de singularidade acontecer de novo :-)
Valeu, Motoqueiro. Aguardamos novas histórias para expandir nossos horizontes filosóficos e científicos.